BELEZA AMARROTADA


«e, de repente, apetece morrer. Apetece o grande sossego, imóbil e definitivo. Realmente dormir acabado. O silêncio. A solidão sem sobressaltos paisagens caras novas. A paz connosco. E sem espelho. Não ver ninguém, já mais ninguém. Esta esperança mais que certa seja acompanhada de cantos e alegria. Sem olhar para trás, para quem fica andando, inda ache graça. Os imprevisíveis lamentáveis acidentes da nossa viagem, mesmo os veniais, aqueles de que nos não demos conta na altura mas ficaram vibrando ocultos em nós como alarmes parasitas, clandestinos mas insistentes, uma térmita na aparência insignificante inofensiva embora voraz e teimosa, continuaram ressoando corroendo desfazendo lentamente uma qualquer fibra que nunca saberemos onde estava e era importante. Não se previa já? ou seria então o alvo determinado, a rota desde sempre planeada que muito nos espanta permanecesse assim mascarada doutros caminhos possíveis. A sabermos tudo antes, que chateza, que falta de iniciativa! morte prematura. Insisto, jogando no António Maria Lisboa: apetece descansar e deixar os outros descansar e descansados.»
[in Textos de Guerrilha 2, Ler Editora, 1981]
A rede social da Nokia chama-se mosh.
Blogger há um lustro, and keep going.
PS - Cáspite: ao fazer o link para o primeiro BdE, apercebi-me que os arquivos do blogue desapareceram (e com eles a prova de que tudo começou a 1 de Janeiro de 2003).
Antes fosse só 2007 a acabar.
Palavras devoradas pela chuva (o ruído da água a abater-se sobre telhados de zinco) e outras intempéries. Palavras escritas na parede há muitos anos (os ricos que paguem...) e mutiladas por cartazes publicitários. Palavras ditas na rua, voláteis, levantando a cabeça no meio de conversas alheias, desfazendo-se no ar como fumo. É delas que espero o que as outras nunca me dão.

Alice em rodopio.
Este ano, foram processados precisamente 918 milhões de SMS nas redes dos três operadores entre os dias 21 e 25 de Dezembro, ou seja, mais do dobro das mensagens enviadas e recebidas no período natalício de 2006, que totalizaram 459 milhões. Imaginando que cada português tem um telemóvel (incluindo bebés recém-nascidos e velhotes analfabetos), estes números sugerem que cada cidadão enviou em média 100 mensagens em cinco dias, ou 20 mensagens por dia. Sou só eu a ficar perplexo?
Então cá vai o top-10 dos meus blogues preferidos durante o ano de 2007:
1. Animais Domésticos
2. Pastoral Portuguesa
3. umblogsobrekleist
4. A Memória Inventada
5. A Terceira Noite
6. Estado Civil
7. Arrastão
8. A Causa foi Modificada
9. Vida Breve
10. BlogTailors
Os números vão de 1 a 10 porque é assim que se costumam fazer as listas (e porque os ex aequo não dão jeito nenhum). Só isso. À excepção dos três primeiros blogues, a restante ordem é pouco menos do que aleatória.
Analisar as embalagens natalícias que transbordam dos ecopontos.
Poesia magnética home made. Palavras portuguesas com íman, coladas ao branco do frigorífico.
Noite silenciosa. Ou nem por isso. Pela cidade, através de todas as janelas iluminadas, o mesmo som: papel rasgado, papel rasgado, papel rasgado.
De tão luminoso o céu parecia-me
o inferno
[in Pêndulo, de Paulo Tavares, Quasi, 2007]
Consumidores de todo o mundo, abstenham-se.
Só hoje li isto. E agora impunha-se encontrar aquele emoticon que cora.
O Funcionamento de certas coisas voltou a funcionar.
Acabou o Posto de Escuta (um blogue que mudou, sem o saber, a minha vida).
Dez anos e 134 milhões de euros depois do previsto, a extensão da linha azul até Santa Apolónia é hoje inaugurada. Para celebrar o facto, o Metropolitano de Lisboa abriu todas as cancelas da sua rede e deixa os passageiros circularem gratuitamente (como no dia da assinatura do Tratado de Lisboa).
A meu ver, mais valia assumir que a generosidade não celebra nada que mereça ser celebrado. Quando muito, serve como tardio pedido de desculpas.
O mais velho tem ciúmes do mais novo.
O NÚMERO DOS VERSOS
É muito igual a literatura, o que fica guardado nos livros.
Com o tempo mudou o verso, a curva, o arco,
o declive, o mal-estar, a maneira de enumerar as paisagens,
as coisas desconformes. Imagina tu as palavras que se repetem
à saída dos cinemas de província, atravessando o nevoeiro
das noites de Inverno; imagina tu estas ruas que ficam desertas
com o crepúsculo, os campos de batalha, os recados e bilhetes
de amor que nunca foram entregues, os caminhos
que levam da madrugada até ao coração da morte.
Poesia fácil, prosa quase; a música vem da sua melancolia
e não da aritmética sentimental, daquelas palavras
(sangue, grito, coração, litoral). Mais de um halo,
do sopro dos pinhais, dos destroços de um amor de toda a vida.
Desengana-te acerca da poesia, da elevação,
da circunstância, fala apenas - como os antigos - da aventura
de um solitário entre ruínas, levantando as pedras,
reerguendo muros, contando o número de vítimas.
Depois deste haverá outro terramoto, recordarás o vento
nas eiras, o musgo entre os carvalhos, o rio dobrando-se
numa curva onde há mais choupos, esse areal, essa ventania.
[in Se me Comovesse o Amor, Quasi, 2007]

Dos poetas anglo-saxónicos ao ogre do Eliseu, é sempre a descer. E agora, Carla? Também vais fazer uma canção sobre a doçura do nome Nicolas?
Tenho que confessar uma coisa: distraído como ando, não sabia sequer da existência do concurso Melhor Blogue Português 2007. Pior: não fazia ideia que o Invenção de Morel estava nomeado para a categoria Artes e Cultura. O oitavo lugar que este blogue acabou por obter é, também por isso, um bocadinho lisonjeiro.

A legenda são três versos, 17 sílabas no total.
Sandro está exausto porque começou hoje a trabalhar na Byblos, Carina diz que bibelôs também tem muitos lá em casa e nunca ficou cansada por lhes tirar o pó.
Uma delícia, as La Traviata Photo Sessions.
Asas fantásticas
temos dois pares
e cabelos espectaculares!
Pronta para salvar o mundo?
Não te esqueças da tua mala!
[Letra do jingle de um anúncio às bonecas Winx, repetido várias vezes por hora no Canal Panda]
Era esta a coisa que eu tinha para anunciar. A partir de agora, além das minhas divagações na ilha do inventor Morel, serei também Bibliotecário de Babel, naquela infinita rede de galerias hexagonais em que o universo se confunde com o que está nos livros.
É a conjura argentina. De um lado, Bioy Casares. Do outro, Borges. Acho que faz sentido.
O som dos passos cada vez mais velozes do Pedro, de uma ponta à outra do corredor.
Thank you very much, mr. Alexander Fleming.